terça-feira, 3 de janeiro de 2012

entreato

escultura etérea de ferro
feita de concavidades
repletas de ar maciço
adormece no espaço

argila que descansa
sobre o torno
e detém o pathos
da mão do artista

pentagrama
juncado de notas
guarda silêncio
sobre o piano

escultura que descansa
sobre o espaço
e detém as concavidades
da mão do artista

argila
juncada de talhos
guarda silêncio
sobre o torno

pentagrama etéreo
feito de notas
repletas de silêncio
adormece no piano

sábado, 22 de outubro de 2011

éter

na amplidão do momento
ouço uma música que canta infinita:

a sinfonia das esferas
permeia a consciência do universo

e um átomo resvala
na dobradura do espaço...

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

philosophia

convulsões intelectuais
anatomia do nada
emanações da matéria eterna
efeito sem causa

fieira de filósofos
jocosamente respeitados
malhando o grão

um simples acaso
no plano da Providência?
instrumento adequado
para uma causa final

domingo, 9 de outubro de 2011

giacometti atropelado

hostilmente em minhas gavetas
mal-entendido dedo me inspirava
o relógio bêbado estampado
permanecia gelado e semidobrado

depois
traço por traço
rompia minha generosidade

para talhar meus ossos
a existência lúcida
velava o abismo entre os átomos
num noturno de Chopin

madonna con bambino

progressão dupla
chorus improvisado
textos caudalosos
sob camadas de detalhes

entre idas e vindas
a falência metafísica
torna-se matéria

combinação de objetos
noções de corpo e espaço
desafio do traço leve
numa inconfundível ambivalência

domingo, 11 de setembro de 2011

pêndulo

pensando
eu deixo de ver
já não estou mais aqui
o véu cerra meus olhos

súbito
como um peixe fora d'água
saio de mim
apenas observo

e então
vejo que há um rio
que flui por si
sem esforço

mas este peixe
torna a mergulhar
e a achar
que não há rio algum

e assim é
como um pêndulo oscilando
ora peixe
ora rio